terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Enrevista Adicional

Meu nome é Jeane Alves da Silva, tenho 27 anos. Sou pedagoga e dou aula no estado e no município. No estado dou aula de Disciplinas Pedagógicas e Educação Infantil, para o Curso de Formação de Professores. No município dou aula de Braille para deficientes visuais, no Instituto Helena Antipoff.


Como é o seu trabalho na sala de aula? Você tem muitos desafios na relação com o aluno?

Sim, é sempre um desafio, como é pra todo mundo que está começando. No meu caso eu praticamente estou no início. Tanto no estado quanto no município eu comecei no ano passado. No estado eu estou no meu segundo ano e no município no primeiro. Eu completei um ano em agosto. Eu fiz concurso no estado e no município. Primeiro eu fui chamada para o estado, onde comecei em fevereiro, quer dizer, um ano inteiro. E esse ano que já está quase no fim, quer dizer, foram dois anos letivos com turma. No município eu entrei no ano passado, mas só peguei turma este ano.



Você está com turma regular também no município ou você está trabalhando aqui, no Instituto Helena Antipoff?

Não, eu estou trabalhando aqui, na alfabetização dos alunos, alfabetização em Braille, na escrita Braille.


Como é que você lida com os alunos das classes regulares? Como você faz a avaliação desses alunos?

Ano passado eu estava em outra escola. Ano passado e este ano foram muito diferentes um do outro. No ano passado eu tive uma aceitação muito boa dos alunos, tive um apoio muito grande dos alunos. Já da Direção e dos funcionários, não. Só que a gente que é professor sabe disso. A gente lida muito mais com os alunos do que até com os próprios colegas. O nosso maior tempo é com eles. Então a gente tendo uma boa relação com eles tem tudo. Com essa turma, acabamos superando os obstáculos e o mais interessante é que era recíproco, tanto de mim pra eles, quanto deles pra comigo. Foi muito interessante sabe? Aquela relação construída, mesmo? Eles aprontavam, como aprontam com todo mundo e eu acho isso até interessante porque aí a gente contrói mesmo a relação, até com as coisas erradas a gente vai tirando lição. Por exemplo, no ano passado, quando eu cheguei na primeira escola, a inspetora me acompanhou e me mostrou a sala na frente dos alunos e eles ficaram observando. Eu achei muito interessante. E depois quando acabou a aula, o representante da turma disse assim: “Professora, eu acho isso um absurdo, um desrespeito. A gente não sabia que ia ter uma professora cega, mas a questão não é essa, a Direção é que tinha que ter apresentado a senhora pra gente. Eles é que tinham que ter apresentado a escola pra senhora. Isso é obrigação deles.” Eu achei interessante isso e aí nos fomos nos adaptando. Eu disse a eles que o que tivesse de escrever no quadro eu ia ditar e isso requer mais atenção. Eles precisam ouvir. Aí eu fui explicando pra eles: se tiver alguma coisa pra ler, vocês é que vão ler pra mim. Se a gente vai fazer uma apresentação de seminário, vocês trazem cartazes, ou material pra passar no datashow e vocês é que vão descrever. Vão fazer a apresentação do trabalho e vão dizer o que colocaram nos cartazes ou na apresentação. Pra eu saber que vocês estão se baseando no que foi dado, estão usando um recurso didático. Também combinei com eles de mandar os trabalhos por e-mail se tivesse computador. Nossa, eles aceitaram muito bem! Não enganavam, não ficavam dizendo que tinham mandado sem mandar, até porque eu confirmava quando chegava. Então alguns que se atreviam a bancar os engraçados. Logo voltavam atrás. Os próprios colegas chamavam a atenção: “ela confirmou o de todo mundo, só não confirmou o seu, então alguma coisa aconteceu, você não mandou ou mandou para o endereço errado”. Numa ocasião um aluno entregou o mesmo trabalho de outra colega igualzinho, só mudou o nome. Estava tão igual que até os erros de Português, ele copiou. Quando eu fui entregar as notas ele ficou com nota vermelha, então ele veio conversar comigo. Eu disse a ele, eu expliquei o porquê da nota. Ele então falou: “mas está injusto, eu não concordo com a minha nota”. Eu respondi: “Injusto está. Você acha que merecia quanto? Porque pra mim você merecia zero. Eu só não te dei zero porque a gente está começando. Eu estou te conhecendo agora. Você também está me conhecendo agora. Nós temos que deixar as coisas claras, colocar as regras do jogo na mesa, pra depois começar a agir. Você acha certo o que você fez? Poderia ter prejudicado não só a você como também a sua colega”. Ele então reconheceu que errara, pediu desculpas e disse: “Pode deixar que eu tiro isso de letr”. Eu então respondi: “Eu sei que você tira isso de letra”. No bimestre seguinte ele não fez mais isso e estudou mesmo e tirou 9,5.

Jeane, você falou na questão da internet, como é que você faz a leitura dos trabalhos?

Tem um programa, o dosvox.


Então você tem plena autonomia para desenvolver o seu trabalho. Você dá a sua aula, ditando os conteúdos, os alunos lêem as apresentações e você pode avaliá-los pela internet. E quando o aluno não tem acesso à internet?

Os alunos deste ano já não têm essa possibilidade de acesso livre à internet. Esse ano eu não tenho trabalhado com internet, só com trabalho escrito.


Então você tem um ledor para ler os trabalhos dos alunos?

Isso.


Você usa outro recurso tecnológico para suprir suas necessidades?

Não, só o dosvox, mesmo.


Na sua rotina diária, do que você sente falta para ajudá-la?

Ah, de muita coisa: recursos materiais, mesmo, falta muito, no município, e principalmente diálogo. As pessoas não procuram saber do que você está precisando, se está tudo indo bem ou se está dando errado, para que se possa consertar o que está errado e melhorar o que está dando certo. Eu acho que falta diálogo na instituição pública. Eu acho que isso depende muito da Direção, porque no ano passado, por exemplo, eu trabalhei em outra escola. São duas escolas do estado, entretanto são totalmente diferentes. Na do ano passado não havia esse link entre funcionário e Direção. Com a turma era tudo ótimo. Já nessa você vê que tem esse apoio da equipe pedagógica. Eles estão sempre procurando o que está bom e tentando melhorar o que não está e vão buscar mesmo, informando-se. Não é bem ser do estado ou do município é da gestão da escola.


E a turma desse ano como você sente. É melhor que a do ano passado?

Não, a desse ano tem problemas no sentido da disciplina. No aproveitamento é quase a mesma coisa. Na outra escola tinha resposta. Poderia não ser a resposta que eu queria, mas tinha uma resposta. E pra mim isso é tudo. Você mostra que de alguma forma está mexendo com o aluno, você está afetando ele. E pro aluno reagir, ele precisa ser afetado. E na escola deste ano isso não acontece. É uma inércia muito grande, como se nada estivesse acontecendo. São alunos do Ensino Médio, do 4º ano, quase professores.


Jane, você nasceu cega ou sua cegueira foi adquirida?

Não, eu fiquei cega aos cinco anos. Apareceu um problema na vista e ela foi sumindo.


Quais as escolas que você freqüentou na infância?

Antes de perder totalmente a visão eu já estudava no Benjamin Constant, porque o problema na minha vista apareceu mais ou menos com 1 ano, aí eu fui perdendo gradativamente. Aos três anos eu perdi a visão de um olho. Aí eu já fui pro Benjamin, porque lá eles atendem também casos de baixa visão. Então eu já estudava lá, até porque eu sou filha única e o médico sugeriu que eu fosse pra lá pra ter contato com outras crianças, enfim ter um melhor desenvolvimento social . Ainda mais que perdendo a visão os pais começam a proteger mais. Isto poderia limitar o desenvolvimento e a aprendizagem, então ele achou melhor que eu fosse estudar lá.


Você sendo filha única, houve superproteção?

Eu acho que sim, não por ser filha única. Eu acho que eu seria de qualquer jeito, porque meu pai é muito prudente. Tudo dele tem que ser com muito cuidado. Ele é assim com todo mundo, até com ele mesmo. Então mesmo que tivesse vários filhos seria a mesma coisa. O que contribuiu um pouquinho foi o fato de não enxergar. Só que também não prejudicou muito porque eu sou muito parecida com meu pai. Ele é muito teimoso, eu também sou muito teimosa. Teve muitas coisas na minha vida que foram acontecendo sem ser intencional, mas que favoreceram muito. Por exemplo, meu pai com esse cuidado todo para eu não me machucar..., eu era doida pra aprender a andar de bicicleta, mas é claro que ele jamais ia deixar. Eu, muito teimosa, quando deparava com uma bicicleta, montava nela. Não queria nem saber. Ele falava comigo e eu ia embora e fingia que não estava escutando. Ele não desistiu. Coincidiu de um primo dele me dar uma bicicleta de presente e ele trabalhava à noite. Então, perfeito, toda tarde eu ia aprender a andar de bicicleta. Aí eu aprendi. Quando ele viu, eu já estava sabendo. Aí ele não esquentou mais.


E você andava no espaço...

...que eu conhecia e onde não tinha muita gente. E assim foi nas outras coisas também, sabe? Nos estudos. Eu estudei no Benjamin até a oitava série e nunca repeti de ano. Lá tem tudo: Educação Física, Natação, Artesanato, Música. Foi muito bom. E lá é muito grande, a gente aprende a se locomover. Eu não era interna porque ele não deixou. Já minha mãe era medrosa, mas deixava. Ele, não deixava de jeito nenhum. Quando eu tinha uns 12 anos eu queria limpar a minha cômoda no meu quarto, arrumar as minhas coisas do meu jeito. Ele não queria deixar. Eu tinha de fazer tudo escondido, porque minha mãe deixava. Depois que ele via que estava dando tudo certo aí ele deixava. Não deixava eu namorar, usar brinco, passar baton e eu sempre uso. Mas não é por causa de ser filha única, não, é o temperamento dele. E ele é nordestino...


Deve ter sido uma relação complicada...

É mas foi legal, também, porque foi sendo construída. Eu fui mostrando que eu poderia me machucar, mas é um risco que todo mundo corre. Qualquer um pode cair de uma bicicleta.


Jeane, você continua estudando, não é? Sei que você faz um curso na UFRJ.

Eu faço parte do grupo de pesquisa da UFRJ, sempre fiz desde quando eu estava cursando Pedagogia na UFRJ, eu me integrei num grupo de pesquisa de Sociologia. Fiquei um ano e pouco nesse grupo. Aí terminou o projeto e começou outro. Eu não quis entrar nesse outro grupo de Sociologia. Eu fui para a pesquisa sobre Inclusão. E é onde eu estou até hoje.


Então você deve ter uma discussão bastante aprofundada sobre a inclusão. Que é que você acha da questão da inclusão dos alunos deficientes nas classes regulares? A Secretária de Educação tinha essa proposta para 2010, parece-me que ela voltou atrás.

Ela voltou atrás, sim. Eu, particularmente, sou favorável à inclusão. Acho que é uma excelente forma de aprendizado pra todos. Eu acho que todo mundo sai ganhando com isso: o aluno, os colegas, principalmente, que aprendem a conviver. Eu estudei no Pedro II no Ensino Médio e foi muito interessante também. Eu fiz parte da inclusão. Eu fui incluída. Eu fiz prova, fiz concurso, normalmente como todos.


Você fez a prova com ledor ou em Braille?

Com ledor. Eu acho isto muito interessante, também, porque mostra que você entrou por mérito, não porque é deficiente. Isso é muito legal porque mostra pro aluno que apesar da deficiência ele tem capacidade e mostra pros colegas também, pros professores. Eu acho que é um exemplo, até. Lá no Pedro II foi sensacional. Eu fui muito bem aceita pelos colegas, mas muito mesmo. Ali teve realmente a inclusão. E todo mundo ganhou. Precisa de ver como eles falavam, os alunos. Até hoje a gente se fala, se dá bem. Por exemplo, eu precisava de ledor e partia dos próprios alunos e lá no Pedro II tem uma das estratégias de ensino: todo bimestre nós temos que ler um livro de literatura e cai na prova. Eles, como eu tinha mais dificuldade, a turma tomou a iniciativa de montar um horário pra ler pra mim. E era tudo da mesma idade 16 anos. Fizeram isso durante os três anos. Então eu acho que a inclusão é maravilhosa, só que tem de querer. A inclusão depende de todos. Tem que estar todo mundo envolvido nesse processo mesmo: aluno, professor, colegas, direção, a sociedade. Tem que haver esse envolvimento de todos. Nesse caso, como a Secretária queria fazer, não ia dar muito certo. A gente sabe: não tem recurso, material nem pra quem enxerga, pros ditos “normais”, que dirá pros com necessidades especiais. Então eu acho que vale a pena, sim, mas tem que ser uma coisa gradativa, aos poucos. Primeiro ela tem que reeducar os profissionais, pois muitos não têm capacidade pra lidar nem com os ditos “normais”. Então tem de preparar para poder incluir até porque existem necessidades e necessidades. Tem alguns, no caso, um aluno com deficiência visual, ele pode ser incluído normalmente. Não vai haver grandes problemas. Se ele tiver dificuldade, ele vai falar, vai pedir, vai buscar ajuda, de alguma forma. Já um PC, por exemplo, vai ter muita dificuldade. Se ele não tiver um apoio, vai ser muito mais difícil. Não é simples assim como as pessoas pensam. Mas eu sou favorável à inclusão.


Jeane, você se locomove sozinha?

Não, eu saio sempre acompanhada, porque eu tenho medo. Eu conheço o caminho, sei como chegar aos locais onde preciso, mas sempre tem alguém que me acompanhe, nem que seja uma criança que não saiba o caminho, só para que eu me sinta mais segura.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Introdução

Algumas palavras sobre as entrevistas
Ao decidir pelas entrevistas, pensamos fazê-las com a intenção de mostrar um panorama que apresentasse a questão da inclusão a partir do ponto de vista de pessoas que convivem com o problema.
Por se tratar da inclusão de um cego na escola pública, procuramos trazer depoimentos de representantes da família e da escola. Dessa forma, temos os depoimentos de Rita, mãe de um cego e professora universitária; de Sulamita, filha de um casal de cegos e professora de cegos; de Jeane, professora cega de cegos e de Cursos de Formação de Professores, em classes regulares, e de Sônia, professora de Escola de Formação de professores e, também, professora universitária de Psicologia. Na primeira, leciona a disciplina Conhecimentos Didático-Pedagógicos da Educação Especial. Na segunda, dá aulas, tanto na Psicologia quanto na Pedagogia, de disciplinas afins com a Educação Inclusiva, desde 1995, em princípio com o nome de Pedagogia Terapêutica e, atualmente, como Educação Inclusiva.
A partir desses depoimentos entendemos que a inclusão é um direito do cidadão e que deve ser promovida. Para isso é fundamental um trabalho de reeducação da sociedade em relação às diferenças, de modo que aceitemos, definitivamente, que todos somos diferentes, alguns um pouco mais, como nos apresenta o professor Antônio Borges no texto A opção do Brasil: Inclusão.
Esperamos que essas entrevistas sejam pontos de reflexão e de enriquecimento do debate.

Abraços do Grupo B

Entrevista 1

Meu nome é Rita Maria de Abreu Maia. Sou graduada em Letras, com Mestrado e Doutorado em Literatura Portuguesa. Tenho quase 58 anos. Nasci em São Fidélis, no Norte Fluminense. Além do meu caçula que é deficiente visual, tenho mais dois filhos: uma moça e um rapaz.


Você tem um filho cego, mas sei que a cegueira não é de nascença. Como isto aconteceu?


Aos 3 meses percebemos que ele apresentava um movimento irregular dos olhos (nistagma, viemos a saber mais tarde) e uma forte fotofobia. Ao mesmo tempo percebemos que a luz do quarto, estando acesa ou apagada não lhe causava estranhamento.


Qual foi a sua reação ao perceber esta situação?


Ficamos muito assustados e aflitos, Estávamos fora de casa, em Guarapari, passando uns dias de férias. A aflição era imensa porque meu marido tem uma irmã que ficou totalmente cega aos 13 anos. Esse fato genético aumentava nossa certeza de que havia de fato um problema. Morávamos em Vitória. Fomos para lá e fizemos os primeiros exames de sangue para ver a possibilidade de toxoplasmose. Não era o caso. Depois fomos encaminhados a um neurologista que, embora não pudesse diagnosticar qual a síndrome, percebera que a retina não respondia a reflexos. E não houve como evitar ouvir que nosso filho não enxergava.


Como a família reagiu?


Foram momentos de imensa ansiedade, dor indescritíveis. Os irmãos só desejavam retirar seus olhos para dá-los ao irmãozinho, mais novo que o irmão mais velho oito anos, e da irmã, 6 anos e poucos meses mais novo. A demora dos resultados das pesquisas era sempre grande. Não ficamos parados. Fomos ao Rio, São Paulo, Belo Horizonte. Corremos de um lugar a outro por quase dois anos quando o diagnóstico fechou: síndrome de Lebber.


Com que idade ele está atualmente?


Completou 24 anos ontem, dia 20 de novembro.


A vida escolar do seu filho teve quais desafios?


Provavelmente tiveram muitos. Mas houve muita solidariedade que abateu o resultado negativo da empreitada. Ele estudou desde os 2 anos em escola comum, para videntes. Todos das escolas por onde passou aprendiam muito com ele. Depois que ele entrou na alfabetização, a turma da escola foi a mesma até o final do Ensino Médio. Nos primeiros anos, até 7/8 anos de idade, ele lia e escrevia com letras grandes pretas em fundo branco. Depois perdeu totalmente a visão, e aprendia por audição, memória e tato.


Você pôde contar com uma escola que o recebesse?


Não foi muito difícil porque, sendo eu professora com algum reconhecimento na comunidade (Cidade de Campos), as portas me foram sempre abertas. Os professores se assustavam e depois descobriam que era mais fácil do que supunham. Depois de tentar duas pré-escolas, ele foi para uma grande escola onde os irmãos estudavam e eu trabalhava. Aí tudo se ajustou. Ele entrou lá por volta dos 4 anos e só saiu quando concluiu o EM.


Essa escola era pública ou privada?


Era privada. Infelizmente, não era possível outra experiência.


Seu filho foi alfabetizado em Braille?


Não. Como já disse teve visão subnormal até os sete, oito anos. Teve aulas de Braille para um conhecimento elementar. Mas ele não se ajustava bem e, como na escola, os professores desconheciam o Braille, ele passou a não lhe trazer benefícios.


Ele usou ou usa algum artefato tecnológico que facilite suas atividades?


Sim. Isso foi um fator preponderante em sua formação. Primeiramente, um gravador foi fundamental. Gravava aulas, livros, textos importantes. Contratamos uma professora primária por todos os anos de sua vida escolar que lia para ele e o ajudava a se organizar e a fazer tarefas possíveis em alto relevo. Depois, já por volta das 7ª e 8ª séries ele começou a usar um programa de computador criado pelo professor da COPPE – UFRJ, José Antonio Borges, chamado DOSVOX. Fez curso com ele no Benjamin Constant. E daí, seu avanço intelectual foi surpreendente.


Sei que ele tem bastante autonomia. Há algum recurso que o apoie, garantindo esta autonomia? Como ele gerencia as atividades da vida diária?


O computador deu-lhe o passaporte para esta autonomia. Ele passou a escrever o português corretamente, superando as limitações ortográficas que a perda da visão logo após a primeira série lhe trouxe. Ouvia livros pelo programa e, à medida que o programa se aperfeiçoava, ele também ganhava mais e mais autonomia.
Em relação à locomoção, tudo se tornou mais fácil com a aquisição de um cão guia, obtida e orientada no Guide Dog Foundacion, em Nova York.


Conheço um pouquinho dessa história e sei que é rica em momentos surpreendentes. Fale um pouquinho sobre a decisão dele em relação à mudança de cidade. Fale também de outras situações em que seu filho a surpreendeu.
Sobre o ingresso na Universidade, como se deu?
Que dificuldades acadêmicas ele teve de vencer?
Como ele tinha acesso a material escrito? E na hora das avaliações, com que contava?


Cada mudança de situação, de momento existencial, era precedido de grande tensão. Medo, inquietação, dúvidas. Depois o enfrentamento levava ao ajuste da situação problema. Poucas vezes recuamos em alguma decisão. Faço uma síntese de questões fundamentais:
1. Decidimos que ele estudaria em escola comum para que tivesse visão de mundo mais alargada.
2. Optamos por lhe dar uma “ledora”, uma pessoa que lesse para ele, contasse história, andasse com ele, assistisse a filme com ele fazendo-lhe a narrativa do que via.
3. Levávamos a filmes, shows, teatros.
4. Quando o curso de inglês não soube mais resolver o problema da escrita dele, contratamos uma professora particular para que o “alfabetizasse” na língua estrangeira que ele já falava e entendia. Mais uma vez o computador foi fundamental.
5. Fizemos grande investimento nele, em todas as direções. Orientamos sempre para que entendesse que lhe faltava apenas um sentido. Temos cinco, logo, só lhe faltava um. Quando tudo dizia que não era possível, que não ia dar certo, nós recusávamos essa ideia e íamos em frente.
6. Se tivéssemos posto o dinheiro gasto com ele em poupança, ou investido de outra forma, ou desfrutado de outro de conforto importante para a classe média, possivelmente, hoje teríamos uma vida bem mais confortável e tranqüila do que temos neste momento de nossa vida. Tudo foi feito com esforço e determinação, na certeza de que é possível superar barreiras, mesmo quando a sociedade e o estado não sabem ou não podem facilitar a trajetória. Ele mudou-se para Niterói para fazer faculdade no Rio. Passou a viver com os irmãos. Para isso, contratamos empregada para que pudesse ter um apoio e segurança que lhe facilitassem a organização da rotina.
7. As dificuldades acadêmicas foram poucas. Houve sempre muita colaboração por parte de colegas, professores e de familiares. . No vestibular ele fez prova com “ledores” e usando o DOSVOX. Na PUC, quando para lá ingressou, depois de haver cursado Filosofia na UFRJ, por dois semestres, a estrutura oferecida a ele foi formidável.


Sei que ele fez um curso no exterior. Como foi essa experiência para ele? E para você?


Foi extremamente rica. Deu-lhe a oportunidade de viver sozinho e ter de lidar com situações que exigiam respostas imediatas e individuais. Os primeiros 14 dias foram apoiados pelo tio e padrinho e por sua irmã que lá o instalaram, ensinando-lhe a andar pela universidade e pela cidade.


Que curso(s) ele fez? Onde? Teve recursos apropriados à sua condição para freqüentar esse(s) curso(s)? Alguma tecnologia, apoio de alguém?


Ele estudou na Universidade de Berkeley, na UCLA. Teve dificuldades porque em uma das disciplinas entender gráficos era fundamental. Sentiu-se também muito só porque praticamente as aulas não eram ministradas por um só professor e os alunos eram sempre “rotativos”. No alojamento foi mais apoiado. Gostou muito da experiência e a faria de novo, apesar dos apuros que enfrentou em certos momentos.


E a inserção dele no mundo do trabalho, como está ocorrendo?


Perdoe-me se posso parecer esnobe ou pretensiosa. Não quero e não posso sê-lo. Entretanto, Lucas surpreende pela determinação, interesse, capacidade de trabalho e boa vontade. Preocupa-se em mostrar que um cego pode tanto quanto os videntes. Não pode tudo, é claro. Há sempre que necessitar de apoio de alguém. Mas, é verdadeiramente possível trabalhar e viver sem apoio de alguém?


Como você vê o seu filho? Como ele a vê?


Eu tenho orgulho de seu caráter. É íntegro, sincero, corajoso, determinado e ousado. Sensível e crítico. Ás vezes é um pouco dono da verdade, mas isso faz parte da necessidade de afirmação que caracteriza a alma dos jovens e dos que precisam superar desafios.
Quanto a mim, sinto que ele confia em minha disposição de colaborar com ele na realização de suas a-venturas e sonhos atrevidos.


Existe efetivamente alguma área da vida dele que possa ser caracterizada como uma “necessidade especial”, além da cegueira? Relacionamento afetivo, por exemplo? Interação social?


Ele interage com certa facilidade, embora em alguns momentos seja meio reservado. Mas quando se entrega, aí vai fundo. O plano afetivo é mais complicado. Neste grupo social em que circulamos, de uma certa classe média que desfruta de algum conforto e espera que os filhos se expandam mais que nós, há muito receio de que a “filha” namore um rapaz cego. Por sua vez, as jovens, na idade em que ele se encontra, também desejam outras travessias. Namorar um cego, exige uma disponibilidade e um espírito de cooperação que ainda não estão dispostas a dar. Entretanto, no universo de pessoas que estão, de alguma forma, em desarmonia com a sociedade, aí vemos o contrário: jovens muito solidários que abrem mão de seu conforto e comodismo para apoiar um amigo que não vê. Seus amigos mais íntimos pertencem a esse grupo, mas, por ora, nada aconteceu no plano do namoro.

Muito grata.


domingo, 6 de dezembro de 2009

Entrevista 2

ENTREVISTA COM SULAMITA



Você poderia se identificar e dizer qual é a sua formação?



Meu nome é Sulamita Magalhães. Trabalho na rede estadual de ensino desde 1985. Entrei com 19 anos e fui trabalhar com educação regular. Nesse tempo fiquei 8 anos trabalhando com classe de alfabetização, depois trabalhei com outras classes e consegui uma remoção para ficar mais perto de casa, trabalhando com Educação de Jovens e Adultos, então cheguei lá já com outra realidade porque até então eu trabalhava com crianças e no estado há um sistema de hora extra.



Nisso eu fui buscar um trabalho a mais e deparei-me com uma escola especial. Não havia nenhuma exigência que você tivesse uma especialização. Chegando lá eu percebi que eu precisava de um conhecimento a mais para lidar com aquelas situações que até então eram pra mim inesperadas. Apesar de eu ser filha de deficientes visuais eu nunca pensei em lecionar para pessoas portadores de alguma deficiência. Eu queria ser professora. Comecei então a fazer cursos de capacitação porque eu achava que a minha formação estava falha e fiz vários, na UERJ, no CEPUERJ, e eu tinha feito na época do Normal um curso na Biblioteca Estadual onde meu pai era responsável pela seção Braille. Ele promoveu um curso de Braille pra vidente e eu na farra com outras normalistas fiz este curso e ficou na gaveta. Nunca pensei, apesar de conviver com Braille, com livros e todo o material específico nunca me interessei por isso. A vida é que foi me levando por esses caminhos e eu fui agarrando as oportunidades. Depois eu vim pra essa escola (Escola Estadual Antônio Francisco Lisboa) e nessa escola especificamente eu estou desde 99. E o carro chefe dessa escola é a deficiência mental, só que havia um grupo bem grande na escola que tinha também deficiência visual. Então eu demonstrei interesse em trabalhar com aquele grupo. Eu sou filha de deficientes visuais, estudei Braille, tinha toda uma identificação.



Seus pais têm deficiência visual por que motivo?



Papai sofreu um acidente de carro aos 15 anos, na estrada e perdeu a visão. Houve uma série de infecções que comprometeram o nervo ótico, mas ele não tinha qualquer déficit cognitivo. Mamãe perdeu a visão aos seis meses de idade em conseqüência de um sarampo. Morava no sul, no interior, e foi piorando sem socorro adequado. Então ela nunca enxergou, papai, não. Teve a experiência de ver. Ele estudava em escola regular, tinha namoradinha. Depois ele e mamãe vieram estudar no Benjamin Constant. Foi aí que eles se encontraram. Meu pai se formou, mamãe se formou. Naquela época, 1960, o curso Normal dava acesso direto ao Município, na carreira de professor. Eles já estavam inseridos no mercado de trabalho. Mamãe era do Município. Papai começou a lecionar, mamãe também. E depois minha mãe foi fazer uma faculdade. Isso muito tempo depois, pois nós somos quatro. Nenhum dos quatro tem problema de visão.



Como sua mãe fez essa faculdade? Ela contava com que recursos?



Muitas vezes acompanhei a minha mãe. A primeira faculdade dela foi a Gama Filho e havia muitas dificuldades porque alguns professores não sabiam lidar com aquela situação. “Como é que você vai fazer prova? Professor, o senhor faz a pergunta e eu respondo”. A gente pode fazer dessa forma, ou escrevo a Braille e depois eu leio pro senhor, ou eu trago uma pessoa pra transcrever essa prova pro senhor. O que eu percebia, porque eu era muito mocinha (13/14 anos), o que eu percebia é que os professores não sabiam lidar com aquela situação. Um aluno cego? Eles ficavam assim meio desnorteados. “Eu acho que não vou dar conta.”




E ela que mostrava as alternativas para o professor. Muitas vezes eu mocinha já quando ela fez Pedagogia na Celso (Faculdade Celso Lisboa) eu ia e transcrevia a prova pra mamãe e ela receosa de eu escrever alguma coisa errado, ela ia ditando tudo: c cedilha, dois esses, vírgula, tudo, porque ela queria a prova dela impecável (rsrsrs). Parágrafo! E eu fazia tudo e ela “Como é que ficou? Leia de novo. Como é que você escreveu?” Havia toda essa preocupação e eu lembro muito assim da minha mãe sentada no chão do quarto, e a cama servindo de mesa. Eram muitas fitas cassete, eram caixas de sapato. Porque ela pagava, olha todo o trabalho, ela pagava alguém pra ler os textos, os livros. Ela ouvia e fazia o trabalho dela na máquina de Braille. Pra gente já é difícil uma graduação, pra ela, dobrava esse trabalho todo. Mas ela conseguiu, excelente, brilhante aluna mesmo, porque todo aquele esforço vinha do desejo de provar que é capaz. Mostrar aos outros que é capaz porque acaba abrindo portas. A minha mãe quando foi pra faculdade já tinha uma educação de base. Hoje em dia nós temos um recurso excelente para o deficiente visual e temos também dois programas muito boné também: o dosvox e o jaws. A questão da tecnologia, a internet, o computador vieram só melhorar essa inserção.



Aqui na escola vocês têm computador?



Nós temos, nós trabalhamos com o dosvox. O aluno consegue fazer produção de textos, tem jogos. Como eu falei, aqui nós temos a deficiência mental que nos limita um pouco, mas mamãe, por exemplo, manda e-mail, escreve tudo. Ela tem o Jaws, em casa que é um programa mais avançado. Então faz leituras de livros e tudo. Eu acho que isso foi maravilhoso. O acesso ficou mais fácil. Eu fico até emocionado porque ela domina mais o computador do que eu. E ela foi aprender aos 70 anos. Porque eles não usam o teclado, então todos os comandos têm de ser pelo teclado. Eu não sei fazer nada pelo teclado. Ela sabe. Quando ela escreve o texto o computador lê o texto letra por letra, depois você bota pra leitura, então ele lê o que você escreveu. Eu só poderia ler algum texto da minha mãe sabendo o Braille, como eu sei, mas eu leio mais devagar porque o meu tato não foi desenvolvido. Eu leio através da visão. Você ter a oportunidade de estar compartilhando da mesma escrita, olha que acesso! Que maravilha! Que inclusão legal essa, não é mesmo? Então eu acho que foi um salto extraordinário esses programas de computador.



Onde você colocaria sua família na pirâmide social? É uma família de classe média, pobre ou de posses?



Não, meus pais eram professores do município, mas meu pai tinha uma outra função, era massagista. E aí nessa função eu acho que era onde ele tirava um dinheiro melhorzinho. Nunca nos faltou nada. Eu era uma criança como as outras, ia à praia, ao cinema, mamãe nos levava ao cinema apesar de não enxergar.



Voltando à sua experiência profissional?



Como eu já disse a você, eu conseguira ficar com a turma de cegos dessa escola, pois tinha uma história que facilitava o meu trabalho. Muita coisa faz parte da minha experiência de vida. Como guiar um cego? Eu sempre guiei. Como fazer para sentar. O que é necessário quando eu ofereço algo? “Estende a mão!”. Eu sinalizo isso. Pra isso eu não precisei de escola. A minha escola foi a própria vida. O grande diferencial meu é que o que parece estranho pra você, pra mim é natural. Não há nada de estranho. E o interessante da inclusão é isto. Outras formas de existência passam a ser naturalizadas, porque você passa a ter convivência com aquilo. Se chega alguém fora de uma média e eu não conheço aquilo vai me provocar um estranhamento até um certo desconforto, mas se aquilo faz parte da sua vida deixa de ser estranho. Então a inclusão educacional é importante, mas a inclusão social deve vir antes. Ela deve permitir circular a diferença entre nós. Olha como é interessante. Eu tenho uma diferença e não causa mais estranhamento porque você conhece a minha diferença, mas sabe também que eu tenho limites e você deve respeitar esses limites. Então se eu tenho um aluno cego e ele não tem nenhum comprometimento cognitivo, eu posso trabalhar de diferentes formas. Como é que eu posso falar do macio? Eu preciso que essa pessoa reconheça o macio através do tato. Então eu vou usar outros recursos, oferecendo esse conhecimento a ela e não se negando porque acha que ela não vai entender porque é cega. Um aluno me perguntou uma vez como era o céu. Olha que pergunta difícil, caramba! Aí eu lembrei do céu da boca e disse: Passe a língua em cima. O céu é algo que fica em cima da gente. É mais ou menos isso. Como é que eu ia passar o conceito da palavra céu. Então eu fechei meus olhos e pensei. Acho que o céu da boca é o mais próximo que eu posso trazer pra ele.



Então são essas coisas: é o respeito pelo ser humano porque eu acredito, porque eu vejo meus pais, tudo o que eles puderam atingir apesar das dificuldades, então eu acredito nisso. Esse diferencial da minha história eu acho que já traz uma bagagem pra mim. E nisso tudo eu fui fazer Psicologia porque achei que ainda tinha muito pouco conhecimento. Eu tenho muito pouco, eu preciso de mais. Eu acho que a Psicologia me fez crescer, tanto pessoal quanto profissionalmente. Os alunos dessa escola têm uma dificuldade maior pois têm outras deficiências que comprometem a memória, o armazenamento, mas quando é só a visão é muito mais fácil trabalhar.



Sulamita, você me contou ao telefone que, nessa escola, teve uma experiência com um aluno cego sem déficit cognitivo aparente. Como ele foi encaminhado a essa instituição de deficientes mentais?



Ele veio do Instituto Benjamin Constant, com uma história de repetência. Eu não sei como funciona o Instituto agora, mas parece que tem tempo de repetência, eles acabam orientando para que o aluno possa fazer outra coisa. Ele é da Casa Lar da Mangueira, um abrigo. Ele veio com a Assistente Social e ela contou que ele estava em repetência em História e que ele estava tendo muito dificuldade.



Ele estava em que nível?



Ele estava na 3ª série do 1º segmento do Ensino Fundamental. Ele chegou aqui, começamos. Fui fazer aquela avaliação diagnóstica, para saber de onde eu estava partindo e começamos a conversar muito e o grupo já vinha comigo desde 1989, conhece a minha mãe. Minha mãe já esteve aqui visitando a escola. Houve então logo aquele empatia por eu, apesar de não ser cega, também estou com eles ali, pois meus pais são cegos. E houve um entrosamento muito grande entre a gente e eu fui passando os conteúdos pra ele. Ele realmente já tinha uma resistência, abaixava a cabeça, “não vou fazer, estou cansado”. Mas eu insistia. Nós parávamos muito pra conversar, muito. Ela estava alfabetizado em Braille e muito bem formado. Aquela escola é de excelência para o deficiente visual, uma estimulação mutio precisa, apesar ele ter ficado cego aos treze anos. Ele chegou aqui com uns vinte anos. No final do ano eu o aprovei para a 4ª série, ainda dando uns conteúdos de 3ª, mas como era comigo mesmos. Aí já houve um incentivo. “Caramba! Já saí da 3ª”. Um tempão na 3ª. No final do segundo ano ele já estava pronto para encerrar este segmento. Aí nós fizemos uma formatura aqui na escola onde ele se sentiu valorizado, se sentiu capaz. Aí o que aconteceu, a escola passou a ter uma sala de recursos para os deficientes mentais, e ele não tinha esta deficiência. Eu sempre disse que ele tinha uma história de repetência talvez produzida pela própria escola. Que as escolas acabam produzindo isso. Então a história dele era outra, não era qualquer retardo mental era uma situação produzida pela escola. Aqui existe esta sala de recursos e eles fazem as provas no Instituto Benjamin Constant, através de módulos, chamados CES e eles mesmos optam por fazer os módulos que quiserem. Então pode fazer o módulo de Matemática de 6ª série, por exemplo. E as professoras aqui dão o suporte para o aluno. Eles trazem o material de lá em fitas cassete, por exemplo, e aqui se dá o suporte pedagógico a eles. E ele está prosseguindo. E trabalha num hospital, na área de radiografia, câmara escura. Ele está inserido no campo de trabalho e está fazendo no ritmo dele o segundo segmento do primeiro grau dessa forma. Lá no Instituto eles podem optar também por ter alguém que leia a prova para eles ou fazer em Braille. Lá eles têm essa imprensa que pode ampliar ou apresentar em Braille.



Quanto à inclusão nas classes regulares qual a sua opinião?



Eu acredito numa inclusão, sim, mas numa inclusão de qualidade e não como eu tenho visto. Vamos pensar numa criança que não enxerga. Ela precisa de um professor que vai estar estimulando todos os outros sentidos. Então ela pode estar incluída numa classe regular mas precisa de outros recursos além daqueles que aquelas crianças estão recebendo. É o que eu falei anteriormente. É você respeitar as diferenças e saber o que tem de ser dado assim a mais para aquela criança. Aí há o respeito realmente. Não é botar todo mundo no mesmo saco, cada um tem as suas diferenças, as suas singularidades. O professor que eu vejo da época da minha formação, nós não tínhamos nada. Eu não sei como está sendo feito o Curso Normal, mas eu vejo o despreparo das professoras para estar atendendo os alunos que precisam de um reforço a mais, de uma estimulação a mais. Alguém que saiba o Braille, que é necessário pra eles. Não precisa de muitas coisas, mas é o mínimo necessário. Então a gente precisa ter muito cuidado porque às vezes, ao invés de estar defendendo uma política de inclusão a gente pode estar destruindo uma pessoa ali. Se der a base depois de algum tempo ele vai caminhar sozinho.


Entrevista 3

ENTREVISTA COM PROFESSORES DE DIDÁTICA E DE SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO

Nome: SÔNIA MARIA PELLEGRINI DE AZEREDO
Tempo de magistério: 21 (VINTE E UM ) ANOS
Formação: LICENCIATURA PLENA EM PSICOLOGIA – FAHUPE (1974) MESTRE EM PSICOLOGIA SOCIAL – UERJ (1994)
Tempo na escola: 06 ANOS
Tempo lecionando a disciplina: 06 ANOS


Você conhece a nova proposta curricular para o Curso Normal? O que você acha? Teve oportunidade de participar (de alguma forma) do processo? Como foi essa participação?

Conheço, em parte, principalmente no que toca às áreas da Psicologia (que já lecionei, por dois anos, no Colégio), da Educação de Jovens e Adultos, dos Povos Indígenas e a dos Conhecimentos Didático-Pedagógicos da Educação Especial (que leciono desde 2003), as quais tive a oportunidade de ler. Considero-a bastante apropriada. Anteriormente não me lembro de ter visto outra sequer... Não participei do processo, de sua feitura, propriamente dita. Apenas discutimos em grupos, no Colégio, tão logo a mesma nos chegou às mãos, em 2004, no seu final. Antes disto fui fazendo, com algumas relevantes adaptações, o percurso feito em outras Escolas Normais nas quais lecionei e também no Centro Universitário Celso Lisboa, onde leciono desde 1988.

Como você trabalha a sua disciplina no curso? Você acha que ela ficou mais valorizada? Por quê? Sempre foi assim? E na instituição, como ela vem sendo considerada?

Creio que de forma muito singular, baseando-me em realidades antes conhecidas por mim, na área da Educação Especial, atualmente fundamentada nos paradigmas de uma Educação Inclusiva. Tenho procurado provocar uma atitude de acolhimento a todas as diferenças, apontando para o alunado a importância fundamental de sua participação nos ambientes sócio-educativos que contam com esta clientela dos assim denominados, atualmente, “sujeitos portadores de necessidades educativas especiais”- SPNEE , principalmente estimulando a prática (necessária, obrigatória) do campo de estágio. Teórica e metodologicamente considerando, tenho me utilizado de dispositivos os mais variados, tanto em sala de aula quanto nos loci afetos à convivência com os alunos especiais, quer sejam da rede oficial de ensino, quer não. Valendo-me de discussões disparadas por documentários, vídeos, filmes, textos ilustrativos, material produzido pelos SPNEE e também de textos teóricos que estejam ao alcance dos alunos, fazemos incursões em outros espaços (desportivo-recreativos, musicais, etc.), visitas a unidades escolares em seus eventos, incluindo fórum de debates ocorridos principalmente na Universidade do Estado do Rio de Janeiro(UERJ), no Núcleo de Educação Inclusiva, coordenado pela Profª Drª Edicléa Mascarenhas que, juntamente com seus alunos/estagiários do Curso de Pedagogia, sempre tem uma escuta sensível para as nossas demandas e as dos nossos alunos, oferecendo rico material para discussão e aplicação na prática pedagógica cotidiana.

Considero que esta disciplina, ao ser lembrada para ser inserida no currículo, trouxe visibilidade para todos, contribuindo para fomentar o pensamento de que “os especiais” estão aí e vieram para ficar. E do quanto é necessária uma atitude de dedicação e de profissionalismo para podermos trabalhar com os mesmos.

Tive, anteriormente, uma experiência no Curso Normal do Colégio Estadual Carmela Dutra, onde trabalhei por seis anos, fruto da iniciativa de uma colega de equipe, de podermos oferecer uma disciplina eletiva pensada para as necessidades dos normalistas, na área da educação especial. Não havia o compromisso oficial de se trabalhar com esses conteúdos, embora os professores de Psicologia se detivessem neles, apresentando-os aos alunos de forma não tão sistemática, mas talvez como um adendo; importante, mas “adendo”.

Quanto à receptividade a nível institucional, propriamente dito, creio que a disciplina vem crescendo muito, pois os alunos abraçaram-na com muita garra, não dispensando os pensares propiciados pela mesma e, até onde posso ver, eles são os maiores incentivadores deste outro olhar para este campo de saber/intervenção. Participando muito, salvo raríssimas exceções, o alunado tem correspondido bastante aos nossos anseios, disseminando esta cultura de inclusão no socius, a partir, inclusive, de seus próprios lares, para onde levam nossos debates, nossos filmes (os quais sempre me solicitam como empréstimo, fazendo cópias), segundo nos relatam. Considero tudo isto de uma beleza ímpar, visto que ainda são, em sua maioria, bem jovens...

Na sua visão, o que mudou na proposta? O que você mudou na sua aula, nos textos, na seleção de conteúdos, na sua avaliação, na sua bibliografia (autores adotados) a partir dessa proposta? O que permanece igual?

Iniciarei pelo final, tecendo um breve comentário inicial, ok?
Muito embora não considere que o nosso trabalho pedagógico propriamente dito tenha sofrido alterações com a vinda da proposta, reconheço que a mesma veio trazer, talvez, a legitimidade que nos faltava, inclusive por apontar a exigência de 40 (quarenta) horas de estágio, o que hoje as escolas do Ensino Fundamental, bem como as da Educação Infantil, não podem mais desconsiderar.

Com o passar do tempo, deixei de propor avaliações pontuais, por exemplo, para investir na produção espontânea dos alunos. Fazem suas pesquisas, assistem ao Programa Especial, da TV Brasil, que considero também um excelente recurso para nossas aulas, um excelente aliado em nosso quefazer, conforme falaria Paulo Freire. Assistem a filmes na TV, que sempre aparecem, também, e fazem papers interessantíssimos sobre os mesmos. Reconheço que aprendo muito com tudo isto. As aulas geralmente são pautadas por um texto que considero “disparador”, para a produção de pensamento. Surgem daí as oportunidades de intervenção deles, de indagações que fazem, de experiências que relatam das escolas por onde têm passado, de apresentarem informes ( também eu os apresento com freqüência), de informações, etc., o que propicia uma participação coletiva muito instigante para todos os presentes, inclusive para os estagiários.

Dos autores (as) brasileiros, oportunizo a discussão em torno do pensamento de Mª Thereza Égler Mantoan, da UNICAMP, fervorosa defensora de uma educação inclusiva, uma utopia ativa, a meu ver; não dispensando as qualitativas contribuições de Lília Lobo, Profª Drª da Universidade Federal Fluminense - UFF, que pensa muito divergentemente a questão da filosofia da diferença proposta por Deleuze & Guattari, autores que muito tenho trabalhado na graduação psi. Estabeleço estas e muitas outras conexões, e os alunos aprendem que “deficiência não se compensa: enfrenta-se” (frase proferida por uma mãe militante do AMA (Associação das Mães dos Autistas, salvo engano), com uma filha portadora da Síndrome do Autismo. Trabalhamos muito com produções que são divulgadas na mídia impressa (revistas comuns, Nova Escola, jornais, etc.). Aprendem a considerar também que “deficiência” pode significar tão-somente “diferença”... Muito relevante toda esta discussão sobre a produção da subjetividade contemporânea, retomando algumas produções desde os tempos antigos...

Que recado/mensagem você gostaria de deixar, no que se refere à essa nova proposta para seus colegas e para os especialistas que elaboraram o documento final?

Creio ser importante assinalar que todos os recados e/ou mensagens que gostaria (e gosto...) de passar aos colegas, o são, na medida do possível, nos momentos coletivizados dos Conselhos de Classe, sempre.

Quanto aos idealizadores/elaboradores da proposta da Secretaria Estadual de Educação, que o aprofundamento, daqui por diante, será uma exigência da própria proposta. Tivemos, a meu ver, um delineamento; muito relevante, sim, mas um delineamento, que nos ajudou muito, no entanto. Conforme escrevi acima, foi muito potencializador, para mim, poder contar com sujeitos pensantes sobre a questão (dilemática!) da produção da exclusão social. Foi, também, um marco nesta história da rede estadual (após quase vinte anos de emudecimento), independente de qual gestão político-partidária estivesse no “comando”. Não importa: profissionais afluíram, oferecendo suas contribuições e, quanto a este ponto, enquanto docente, serei sempre reconhecida. A rede estadual incorporou um novo status (ou estatuto, se quisermos) à sua “identidade” de órgão gestor de Políticas Públicas para o Curso Normal, entre outros, neste nosso Estado do Rio de Janeiro.

PS: Agradeço pela oportunidade de me propiciar o estar sendo (mais um) sujeito de sua pesquisa. Muito êxito nesta caminhada!

Atenciosamente,

Sônia Maria Pellegrini de Azeredo
Rio de Janeiro, 24 de maio de 2008.