ENTREVISTA COM PROFESSORES DE DIDÁTICA E DE SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO
Nome: SÔNIA MARIA PELLEGRINI DE AZEREDO
Tempo de magistério: 21 (VINTE E UM ) ANOS
Formação: LICENCIATURA PLENA EM PSICOLOGIA – FAHUPE (1974) MESTRE EM PSICOLOGIA SOCIAL – UERJ (1994)
Tempo na escola: 06 ANOS
Tempo lecionando a disciplina: 06 ANOS
Você conhece a nova proposta curricular para o Curso Normal? O que você acha? Teve oportunidade de participar (de alguma forma) do processo? Como foi essa participação?
Conheço, em parte, principalmente no que toca às áreas da Psicologia (que já lecionei, por dois anos, no Colégio), da Educação de Jovens e Adultos, dos Povos Indígenas e a dos Conhecimentos Didático-Pedagógicos da Educação Especial (que leciono desde 2003), as quais tive a oportunidade de ler. Considero-a bastante apropriada. Anteriormente não me lembro de ter visto outra sequer... Não participei do processo, de sua feitura, propriamente dita. Apenas discutimos em grupos, no Colégio, tão logo a mesma nos chegou às mãos, em 2004, no seu final. Antes disto fui fazendo, com algumas relevantes adaptações, o percurso feito em outras Escolas Normais nas quais lecionei e também no Centro Universitário Celso Lisboa, onde leciono desde 1988.
Como você trabalha a sua disciplina no curso? Você acha que ela ficou mais valorizada? Por quê? Sempre foi assim? E na instituição, como ela vem sendo considerada?
Creio que de forma muito singular, baseando-me em realidades antes conhecidas por mim, na área da Educação Especial, atualmente fundamentada nos paradigmas de uma Educação Inclusiva. Tenho procurado provocar uma atitude de acolhimento a todas as diferenças, apontando para o alunado a importância fundamental de sua participação nos ambientes sócio-educativos que contam com esta clientela dos assim denominados, atualmente, “sujeitos portadores de necessidades educativas especiais”- SPNEE , principalmente estimulando a prática (necessária, obrigatória) do campo de estágio. Teórica e metodologicamente considerando, tenho me utilizado de dispositivos os mais variados, tanto em sala de aula quanto nos loci afetos à convivência com os alunos especiais, quer sejam da rede oficial de ensino, quer não. Valendo-me de discussões disparadas por documentários, vídeos, filmes, textos ilustrativos, material produzido pelos SPNEE e também de textos teóricos que estejam ao alcance dos alunos, fazemos incursões em outros espaços (desportivo-recreativos, musicais, etc.), visitas a unidades escolares em seus eventos, incluindo fórum de debates ocorridos principalmente na Universidade do Estado do Rio de Janeiro(UERJ), no Núcleo de Educação Inclusiva, coordenado pela Profª Drª Edicléa Mascarenhas que, juntamente com seus alunos/estagiários do Curso de Pedagogia, sempre tem uma escuta sensível para as nossas demandas e as dos nossos alunos, oferecendo rico material para discussão e aplicação na prática pedagógica cotidiana.
Considero que esta disciplina, ao ser lembrada para ser inserida no currículo, trouxe visibilidade para todos, contribuindo para fomentar o pensamento de que “os especiais” estão aí e vieram para ficar. E do quanto é necessária uma atitude de dedicação e de profissionalismo para podermos trabalhar com os mesmos.
Tive, anteriormente, uma experiência no Curso Normal do Colégio Estadual Carmela Dutra, onde trabalhei por seis anos, fruto da iniciativa de uma colega de equipe, de podermos oferecer uma disciplina eletiva pensada para as necessidades dos normalistas, na área da educação especial. Não havia o compromisso oficial de se trabalhar com esses conteúdos, embora os professores de Psicologia se detivessem neles, apresentando-os aos alunos de forma não tão sistemática, mas talvez como um adendo; importante, mas “adendo”.
Quanto à receptividade a nível institucional, propriamente dito, creio que a disciplina vem crescendo muito, pois os alunos abraçaram-na com muita garra, não dispensando os pensares propiciados pela mesma e, até onde posso ver, eles são os maiores incentivadores deste outro olhar para este campo de saber/intervenção. Participando muito, salvo raríssimas exceções, o alunado tem correspondido bastante aos nossos anseios, disseminando esta cultura de inclusão no socius, a partir, inclusive, de seus próprios lares, para onde levam nossos debates, nossos filmes (os quais sempre me solicitam como empréstimo, fazendo cópias), segundo nos relatam. Considero tudo isto de uma beleza ímpar, visto que ainda são, em sua maioria, bem jovens...
Na sua visão, o que mudou na proposta? O que você mudou na sua aula, nos textos, na seleção de conteúdos, na sua avaliação, na sua bibliografia (autores adotados) a partir dessa proposta? O que permanece igual?
Iniciarei pelo final, tecendo um breve comentário inicial, ok?
Muito embora não considere que o nosso trabalho pedagógico propriamente dito tenha sofrido alterações com a vinda da proposta, reconheço que a mesma veio trazer, talvez, a legitimidade que nos faltava, inclusive por apontar a exigência de 40 (quarenta) horas de estágio, o que hoje as escolas do Ensino Fundamental, bem como as da Educação Infantil, não podem mais desconsiderar.
Com o passar do tempo, deixei de propor avaliações pontuais, por exemplo, para investir na produção espontânea dos alunos. Fazem suas pesquisas, assistem ao Programa Especial, da TV Brasil, que considero também um excelente recurso para nossas aulas, um excelente aliado em nosso quefazer, conforme falaria Paulo Freire. Assistem a filmes na TV, que sempre aparecem, também, e fazem papers interessantíssimos sobre os mesmos. Reconheço que aprendo muito com tudo isto. As aulas geralmente são pautadas por um texto que considero “disparador”, para a produção de pensamento. Surgem daí as oportunidades de intervenção deles, de indagações que fazem, de experiências que relatam das escolas por onde têm passado, de apresentarem informes ( também eu os apresento com freqüência), de informações, etc., o que propicia uma participação coletiva muito instigante para todos os presentes, inclusive para os estagiários.
Dos autores (as) brasileiros, oportunizo a discussão em torno do pensamento de Mª Thereza Égler Mantoan, da UNICAMP, fervorosa defensora de uma educação inclusiva, uma utopia ativa, a meu ver; não dispensando as qualitativas contribuições de Lília Lobo, Profª Drª da Universidade Federal Fluminense - UFF, que pensa muito divergentemente a questão da filosofia da diferença proposta por Deleuze & Guattari, autores que muito tenho trabalhado na graduação psi. Estabeleço estas e muitas outras conexões, e os alunos aprendem que “deficiência não se compensa: enfrenta-se” (frase proferida por uma mãe militante do AMA (Associação das Mães dos Autistas, salvo engano), com uma filha portadora da Síndrome do Autismo. Trabalhamos muito com produções que são divulgadas na mídia impressa (revistas comuns, Nova Escola, jornais, etc.). Aprendem a considerar também que “deficiência” pode significar tão-somente “diferença”... Muito relevante toda esta discussão sobre a produção da subjetividade contemporânea, retomando algumas produções desde os tempos antigos...
Que recado/mensagem você gostaria de deixar, no que se refere à essa nova proposta para seus colegas e para os especialistas que elaboraram o documento final?
Creio ser importante assinalar que todos os recados e/ou mensagens que gostaria (e gosto...) de passar aos colegas, o são, na medida do possível, nos momentos coletivizados dos Conselhos de Classe, sempre.
Quanto aos idealizadores/elaboradores da proposta da Secretaria Estadual de Educação, que o aprofundamento, daqui por diante, será uma exigência da própria proposta. Tivemos, a meu ver, um delineamento; muito relevante, sim, mas um delineamento, que nos ajudou muito, no entanto. Conforme escrevi acima, foi muito potencializador, para mim, poder contar com sujeitos pensantes sobre a questão (dilemática!) da produção da exclusão social. Foi, também, um marco nesta história da rede estadual (após quase vinte anos de emudecimento), independente de qual gestão político-partidária estivesse no “comando”. Não importa: profissionais afluíram, oferecendo suas contribuições e, quanto a este ponto, enquanto docente, serei sempre reconhecida. A rede estadual incorporou um novo status (ou estatuto, se quisermos) à sua “identidade” de órgão gestor de Políticas Públicas para o Curso Normal, entre outros, neste nosso Estado do Rio de Janeiro.
PS: Agradeço pela oportunidade de me propiciar o estar sendo (mais um) sujeito de sua pesquisa. Muito êxito nesta caminhada!
Atenciosamente,
Sônia Maria Pellegrini de Azeredo
Rio de Janeiro, 24 de maio de 2008.
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