ENTREVISTA COM SULAMITA
Você poderia se identificar e dizer qual é a sua formação?
Meu nome é Sulamita Magalhães. Trabalho na rede estadual de ensino desde 1985. Entrei com 19 anos e fui trabalhar com educação regular. Nesse tempo fiquei 8 anos trabalhando com classe de alfabetização, depois trabalhei com outras classes e consegui uma remoção para ficar mais perto de casa, trabalhando com Educação de Jovens e Adultos, então cheguei lá já com outra realidade porque até então eu trabalhava com crianças e no estado há um sistema de hora extra.
Nisso eu fui buscar um trabalho a mais e deparei-me com uma escola especial. Não havia nenhuma exigência que você tivesse uma especialização. Chegando lá eu percebi que eu precisava de um conhecimento a mais para lidar com aquelas situações que até então eram pra mim inesperadas. Apesar de eu ser filha de deficientes visuais eu nunca pensei em lecionar para pessoas portadores de alguma deficiência. Eu queria ser professora. Comecei então a fazer cursos de capacitação porque eu achava que a minha formação estava falha e fiz vários, na UERJ, no CEPUERJ, e eu tinha feito na época do Normal um curso na Biblioteca Estadual onde meu pai era responsável pela seção Braille. Ele promoveu um curso de Braille pra vidente e eu na farra com outras normalistas fiz este curso e ficou na gaveta. Nunca pensei, apesar de conviver com Braille, com livros e todo o material específico nunca me interessei por isso. A vida é que foi me levando por esses caminhos e eu fui agarrando as oportunidades. Depois eu vim pra essa escola (Escola Estadual Antônio Francisco Lisboa) e nessa escola especificamente eu estou desde 99. E o carro chefe dessa escola é a deficiência mental, só que havia um grupo bem grande na escola que tinha também deficiência visual. Então eu demonstrei interesse em trabalhar com aquele grupo. Eu sou filha de deficientes visuais, estudei Braille, tinha toda uma identificação.
Seus pais têm deficiência visual por que motivo?
Papai sofreu um acidente de carro aos 15 anos, na estrada e perdeu a visão. Houve uma série de infecções que comprometeram o nervo ótico, mas ele não tinha qualquer déficit cognitivo. Mamãe perdeu a visão aos seis meses de idade em conseqüência de um sarampo. Morava no sul, no interior, e foi piorando sem socorro adequado. Então ela nunca enxergou, papai, não. Teve a experiência de ver. Ele estudava em escola regular, tinha namoradinha. Depois ele e mamãe vieram estudar no Benjamin Constant. Foi aí que eles se encontraram. Meu pai se formou, mamãe se formou. Naquela época, 1960, o curso Normal dava acesso direto ao Município, na carreira de professor. Eles já estavam inseridos no mercado de trabalho. Mamãe era do Município. Papai começou a lecionar, mamãe também. E depois minha mãe foi fazer uma faculdade. Isso muito tempo depois, pois nós somos quatro. Nenhum dos quatro tem problema de visão.
Como sua mãe fez essa faculdade? Ela contava com que recursos?
Muitas vezes acompanhei a minha mãe. A primeira faculdade dela foi a Gama Filho e havia muitas dificuldades porque alguns professores não sabiam lidar com aquela situação. “Como é que você vai fazer prova? Professor, o senhor faz a pergunta e eu respondo”. A gente pode fazer dessa forma, ou escrevo a Braille e depois eu leio pro senhor, ou eu trago uma pessoa pra transcrever essa prova pro senhor. O que eu percebia, porque eu era muito mocinha (13/14 anos), o que eu percebia é que os professores não sabiam lidar com aquela situação. Um aluno cego? Eles ficavam assim meio desnorteados. “Eu acho que não vou dar conta.”
E ela que mostrava as alternativas para o professor. Muitas vezes eu mocinha já quando ela fez Pedagogia na Celso (Faculdade Celso Lisboa) eu ia e transcrevia a prova pra mamãe e ela receosa de eu escrever alguma coisa errado, ela ia ditando tudo: c cedilha, dois esses, vírgula, tudo, porque ela queria a prova dela impecável (rsrsrs). Parágrafo! E eu fazia tudo e ela “Como é que ficou? Leia de novo. Como é que você escreveu?” Havia toda essa preocupação e eu lembro muito assim da minha mãe sentada no chão do quarto, e a cama servindo de mesa. Eram muitas fitas cassete, eram caixas de sapato. Porque ela pagava, olha todo o trabalho, ela pagava alguém pra ler os textos, os livros. Ela ouvia e fazia o trabalho dela na máquina de Braille. Pra gente já é difícil uma graduação, pra ela, dobrava esse trabalho todo. Mas ela conseguiu, excelente, brilhante aluna mesmo, porque todo aquele esforço vinha do desejo de provar que é capaz. Mostrar aos outros que é capaz porque acaba abrindo portas. A minha mãe quando foi pra faculdade já tinha uma educação de base. Hoje em dia nós temos um recurso excelente para o deficiente visual e temos também dois programas muito boné também: o dosvox e o jaws. A questão da tecnologia, a internet, o computador vieram só melhorar essa inserção.
Aqui na escola vocês têm computador?
Nós temos, nós trabalhamos com o dosvox. O aluno consegue fazer produção de textos, tem jogos. Como eu falei, aqui nós temos a deficiência mental que nos limita um pouco, mas mamãe, por exemplo, manda e-mail, escreve tudo. Ela tem o Jaws, em casa que é um programa mais avançado. Então faz leituras de livros e tudo. Eu acho que isso foi maravilhoso. O acesso ficou mais fácil. Eu fico até emocionado porque ela domina mais o computador do que eu. E ela foi aprender aos 70 anos. Porque eles não usam o teclado, então todos os comandos têm de ser pelo teclado. Eu não sei fazer nada pelo teclado. Ela sabe. Quando ela escreve o texto o computador lê o texto letra por letra, depois você bota pra leitura, então ele lê o que você escreveu. Eu só poderia ler algum texto da minha mãe sabendo o Braille, como eu sei, mas eu leio mais devagar porque o meu tato não foi desenvolvido. Eu leio através da visão. Você ter a oportunidade de estar compartilhando da mesma escrita, olha que acesso! Que maravilha! Que inclusão legal essa, não é mesmo? Então eu acho que foi um salto extraordinário esses programas de computador.
Onde você colocaria sua família na pirâmide social? É uma família de classe média, pobre ou de posses?
Não, meus pais eram professores do município, mas meu pai tinha uma outra função, era massagista. E aí nessa função eu acho que era onde ele tirava um dinheiro melhorzinho. Nunca nos faltou nada. Eu era uma criança como as outras, ia à praia, ao cinema, mamãe nos levava ao cinema apesar de não enxergar.
Voltando à sua experiência profissional?
Como eu já disse a você, eu conseguira ficar com a turma de cegos dessa escola, pois tinha uma história que facilitava o meu trabalho. Muita coisa faz parte da minha experiência de vida. Como guiar um cego? Eu sempre guiei. Como fazer para sentar. O que é necessário quando eu ofereço algo? “Estende a mão!”. Eu sinalizo isso. Pra isso eu não precisei de escola. A minha escola foi a própria vida. O grande diferencial meu é que o que parece estranho pra você, pra mim é natural. Não há nada de estranho. E o interessante da inclusão é isto. Outras formas de existência passam a ser naturalizadas, porque você passa a ter convivência com aquilo. Se chega alguém fora de uma média e eu não conheço aquilo vai me provocar um estranhamento até um certo desconforto, mas se aquilo faz parte da sua vida deixa de ser estranho. Então a inclusão educacional é importante, mas a inclusão social deve vir antes. Ela deve permitir circular a diferença entre nós. Olha como é interessante. Eu tenho uma diferença e não causa mais estranhamento porque você conhece a minha diferença, mas sabe também que eu tenho limites e você deve respeitar esses limites. Então se eu tenho um aluno cego e ele não tem nenhum comprometimento cognitivo, eu posso trabalhar de diferentes formas. Como é que eu posso falar do macio? Eu preciso que essa pessoa reconheça o macio através do tato. Então eu vou usar outros recursos, oferecendo esse conhecimento a ela e não se negando porque acha que ela não vai entender porque é cega. Um aluno me perguntou uma vez como era o céu. Olha que pergunta difícil, caramba! Aí eu lembrei do céu da boca e disse: Passe a língua em cima. O céu é algo que fica em cima da gente. É mais ou menos isso. Como é que eu ia passar o conceito da palavra céu. Então eu fechei meus olhos e pensei. Acho que o céu da boca é o mais próximo que eu posso trazer pra ele.
Então são essas coisas: é o respeito pelo ser humano porque eu acredito, porque eu vejo meus pais, tudo o que eles puderam atingir apesar das dificuldades, então eu acredito nisso. Esse diferencial da minha história eu acho que já traz uma bagagem pra mim. E nisso tudo eu fui fazer Psicologia porque achei que ainda tinha muito pouco conhecimento. Eu tenho muito pouco, eu preciso de mais. Eu acho que a Psicologia me fez crescer, tanto pessoal quanto profissionalmente. Os alunos dessa escola têm uma dificuldade maior pois têm outras deficiências que comprometem a memória, o armazenamento, mas quando é só a visão é muito mais fácil trabalhar.
Sulamita, você me contou ao telefone que, nessa escola, teve uma experiência com um aluno cego sem déficit cognitivo aparente. Como ele foi encaminhado a essa instituição de deficientes mentais?
Ele veio do Instituto Benjamin Constant, com uma história de repetência. Eu não sei como funciona o Instituto agora, mas parece que tem tempo de repetência, eles acabam orientando para que o aluno possa fazer outra coisa. Ele é da Casa Lar da Mangueira, um abrigo. Ele veio com a Assistente Social e ela contou que ele estava em repetência em História e que ele estava tendo muito dificuldade.
Ele estava em que nível?
Ele estava na 3ª série do 1º segmento do Ensino Fundamental. Ele chegou aqui, começamos. Fui fazer aquela avaliação diagnóstica, para saber de onde eu estava partindo e começamos a conversar muito e o grupo já vinha comigo desde 1989, conhece a minha mãe. Minha mãe já esteve aqui visitando a escola. Houve então logo aquele empatia por eu, apesar de não ser cega, também estou com eles ali, pois meus pais são cegos. E houve um entrosamento muito grande entre a gente e eu fui passando os conteúdos pra ele. Ele realmente já tinha uma resistência, abaixava a cabeça, “não vou fazer, estou cansado”. Mas eu insistia. Nós parávamos muito pra conversar, muito. Ela estava alfabetizado em Braille e muito bem formado. Aquela escola é de excelência para o deficiente visual, uma estimulação mutio precisa, apesar ele ter ficado cego aos treze anos. Ele chegou aqui com uns vinte anos. No final do ano eu o aprovei para a 4ª série, ainda dando uns conteúdos de 3ª, mas como era comigo mesmos. Aí já houve um incentivo. “Caramba! Já saí da 3ª”. Um tempão na 3ª. No final do segundo ano ele já estava pronto para encerrar este segmento. Aí nós fizemos uma formatura aqui na escola onde ele se sentiu valorizado, se sentiu capaz. Aí o que aconteceu, a escola passou a ter uma sala de recursos para os deficientes mentais, e ele não tinha esta deficiência. Eu sempre disse que ele tinha uma história de repetência talvez produzida pela própria escola. Que as escolas acabam produzindo isso. Então a história dele era outra, não era qualquer retardo mental era uma situação produzida pela escola. Aqui existe esta sala de recursos e eles fazem as provas no Instituto Benjamin Constant, através de módulos, chamados CES e eles mesmos optam por fazer os módulos que quiserem. Então pode fazer o módulo de Matemática de 6ª série, por exemplo. E as professoras aqui dão o suporte para o aluno. Eles trazem o material de lá em fitas cassete, por exemplo, e aqui se dá o suporte pedagógico a eles. E ele está prosseguindo. E trabalha num hospital, na área de radiografia, câmara escura. Ele está inserido no campo de trabalho e está fazendo no ritmo dele o segundo segmento do primeiro grau dessa forma. Lá no Instituto eles podem optar também por ter alguém que leia a prova para eles ou fazer em Braille. Lá eles têm essa imprensa que pode ampliar ou apresentar em Braille.
Quanto à inclusão nas classes regulares qual a sua opinião?
Eu acredito numa inclusão, sim, mas numa inclusão de qualidade e não como eu tenho visto. Vamos pensar numa criança que não enxerga. Ela precisa de um professor que vai estar estimulando todos os outros sentidos. Então ela pode estar incluída numa classe regular mas precisa de outros recursos além daqueles que aquelas crianças estão recebendo. É o que eu falei anteriormente. É você respeitar as diferenças e saber o que tem de ser dado assim a mais para aquela criança. Aí há o respeito realmente. Não é botar todo mundo no mesmo saco, cada um tem as suas diferenças, as suas singularidades. O professor que eu vejo da época da minha formação, nós não tínhamos nada. Eu não sei como está sendo feito o Curso Normal, mas eu vejo o despreparo das professoras para estar atendendo os alunos que precisam de um reforço a mais, de uma estimulação a mais. Alguém que saiba o Braille, que é necessário pra eles. Não precisa de muitas coisas, mas é o mínimo necessário. Então a gente precisa ter muito cuidado porque às vezes, ao invés de estar defendendo uma política de inclusão a gente pode estar destruindo uma pessoa ali. Se der a base depois de algum tempo ele vai caminhar sozinho.
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