terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Enrevista Adicional

Meu nome é Jeane Alves da Silva, tenho 27 anos. Sou pedagoga e dou aula no estado e no município. No estado dou aula de Disciplinas Pedagógicas e Educação Infantil, para o Curso de Formação de Professores. No município dou aula de Braille para deficientes visuais, no Instituto Helena Antipoff.


Como é o seu trabalho na sala de aula? Você tem muitos desafios na relação com o aluno?

Sim, é sempre um desafio, como é pra todo mundo que está começando. No meu caso eu praticamente estou no início. Tanto no estado quanto no município eu comecei no ano passado. No estado eu estou no meu segundo ano e no município no primeiro. Eu completei um ano em agosto. Eu fiz concurso no estado e no município. Primeiro eu fui chamada para o estado, onde comecei em fevereiro, quer dizer, um ano inteiro. E esse ano que já está quase no fim, quer dizer, foram dois anos letivos com turma. No município eu entrei no ano passado, mas só peguei turma este ano.



Você está com turma regular também no município ou você está trabalhando aqui, no Instituto Helena Antipoff?

Não, eu estou trabalhando aqui, na alfabetização dos alunos, alfabetização em Braille, na escrita Braille.


Como é que você lida com os alunos das classes regulares? Como você faz a avaliação desses alunos?

Ano passado eu estava em outra escola. Ano passado e este ano foram muito diferentes um do outro. No ano passado eu tive uma aceitação muito boa dos alunos, tive um apoio muito grande dos alunos. Já da Direção e dos funcionários, não. Só que a gente que é professor sabe disso. A gente lida muito mais com os alunos do que até com os próprios colegas. O nosso maior tempo é com eles. Então a gente tendo uma boa relação com eles tem tudo. Com essa turma, acabamos superando os obstáculos e o mais interessante é que era recíproco, tanto de mim pra eles, quanto deles pra comigo. Foi muito interessante sabe? Aquela relação construída, mesmo? Eles aprontavam, como aprontam com todo mundo e eu acho isso até interessante porque aí a gente contrói mesmo a relação, até com as coisas erradas a gente vai tirando lição. Por exemplo, no ano passado, quando eu cheguei na primeira escola, a inspetora me acompanhou e me mostrou a sala na frente dos alunos e eles ficaram observando. Eu achei muito interessante. E depois quando acabou a aula, o representante da turma disse assim: “Professora, eu acho isso um absurdo, um desrespeito. A gente não sabia que ia ter uma professora cega, mas a questão não é essa, a Direção é que tinha que ter apresentado a senhora pra gente. Eles é que tinham que ter apresentado a escola pra senhora. Isso é obrigação deles.” Eu achei interessante isso e aí nos fomos nos adaptando. Eu disse a eles que o que tivesse de escrever no quadro eu ia ditar e isso requer mais atenção. Eles precisam ouvir. Aí eu fui explicando pra eles: se tiver alguma coisa pra ler, vocês é que vão ler pra mim. Se a gente vai fazer uma apresentação de seminário, vocês trazem cartazes, ou material pra passar no datashow e vocês é que vão descrever. Vão fazer a apresentação do trabalho e vão dizer o que colocaram nos cartazes ou na apresentação. Pra eu saber que vocês estão se baseando no que foi dado, estão usando um recurso didático. Também combinei com eles de mandar os trabalhos por e-mail se tivesse computador. Nossa, eles aceitaram muito bem! Não enganavam, não ficavam dizendo que tinham mandado sem mandar, até porque eu confirmava quando chegava. Então alguns que se atreviam a bancar os engraçados. Logo voltavam atrás. Os próprios colegas chamavam a atenção: “ela confirmou o de todo mundo, só não confirmou o seu, então alguma coisa aconteceu, você não mandou ou mandou para o endereço errado”. Numa ocasião um aluno entregou o mesmo trabalho de outra colega igualzinho, só mudou o nome. Estava tão igual que até os erros de Português, ele copiou. Quando eu fui entregar as notas ele ficou com nota vermelha, então ele veio conversar comigo. Eu disse a ele, eu expliquei o porquê da nota. Ele então falou: “mas está injusto, eu não concordo com a minha nota”. Eu respondi: “Injusto está. Você acha que merecia quanto? Porque pra mim você merecia zero. Eu só não te dei zero porque a gente está começando. Eu estou te conhecendo agora. Você também está me conhecendo agora. Nós temos que deixar as coisas claras, colocar as regras do jogo na mesa, pra depois começar a agir. Você acha certo o que você fez? Poderia ter prejudicado não só a você como também a sua colega”. Ele então reconheceu que errara, pediu desculpas e disse: “Pode deixar que eu tiro isso de letr”. Eu então respondi: “Eu sei que você tira isso de letra”. No bimestre seguinte ele não fez mais isso e estudou mesmo e tirou 9,5.

Jeane, você falou na questão da internet, como é que você faz a leitura dos trabalhos?

Tem um programa, o dosvox.


Então você tem plena autonomia para desenvolver o seu trabalho. Você dá a sua aula, ditando os conteúdos, os alunos lêem as apresentações e você pode avaliá-los pela internet. E quando o aluno não tem acesso à internet?

Os alunos deste ano já não têm essa possibilidade de acesso livre à internet. Esse ano eu não tenho trabalhado com internet, só com trabalho escrito.


Então você tem um ledor para ler os trabalhos dos alunos?

Isso.


Você usa outro recurso tecnológico para suprir suas necessidades?

Não, só o dosvox, mesmo.


Na sua rotina diária, do que você sente falta para ajudá-la?

Ah, de muita coisa: recursos materiais, mesmo, falta muito, no município, e principalmente diálogo. As pessoas não procuram saber do que você está precisando, se está tudo indo bem ou se está dando errado, para que se possa consertar o que está errado e melhorar o que está dando certo. Eu acho que falta diálogo na instituição pública. Eu acho que isso depende muito da Direção, porque no ano passado, por exemplo, eu trabalhei em outra escola. São duas escolas do estado, entretanto são totalmente diferentes. Na do ano passado não havia esse link entre funcionário e Direção. Com a turma era tudo ótimo. Já nessa você vê que tem esse apoio da equipe pedagógica. Eles estão sempre procurando o que está bom e tentando melhorar o que não está e vão buscar mesmo, informando-se. Não é bem ser do estado ou do município é da gestão da escola.


E a turma desse ano como você sente. É melhor que a do ano passado?

Não, a desse ano tem problemas no sentido da disciplina. No aproveitamento é quase a mesma coisa. Na outra escola tinha resposta. Poderia não ser a resposta que eu queria, mas tinha uma resposta. E pra mim isso é tudo. Você mostra que de alguma forma está mexendo com o aluno, você está afetando ele. E pro aluno reagir, ele precisa ser afetado. E na escola deste ano isso não acontece. É uma inércia muito grande, como se nada estivesse acontecendo. São alunos do Ensino Médio, do 4º ano, quase professores.


Jane, você nasceu cega ou sua cegueira foi adquirida?

Não, eu fiquei cega aos cinco anos. Apareceu um problema na vista e ela foi sumindo.


Quais as escolas que você freqüentou na infância?

Antes de perder totalmente a visão eu já estudava no Benjamin Constant, porque o problema na minha vista apareceu mais ou menos com 1 ano, aí eu fui perdendo gradativamente. Aos três anos eu perdi a visão de um olho. Aí eu já fui pro Benjamin, porque lá eles atendem também casos de baixa visão. Então eu já estudava lá, até porque eu sou filha única e o médico sugeriu que eu fosse pra lá pra ter contato com outras crianças, enfim ter um melhor desenvolvimento social . Ainda mais que perdendo a visão os pais começam a proteger mais. Isto poderia limitar o desenvolvimento e a aprendizagem, então ele achou melhor que eu fosse estudar lá.


Você sendo filha única, houve superproteção?

Eu acho que sim, não por ser filha única. Eu acho que eu seria de qualquer jeito, porque meu pai é muito prudente. Tudo dele tem que ser com muito cuidado. Ele é assim com todo mundo, até com ele mesmo. Então mesmo que tivesse vários filhos seria a mesma coisa. O que contribuiu um pouquinho foi o fato de não enxergar. Só que também não prejudicou muito porque eu sou muito parecida com meu pai. Ele é muito teimoso, eu também sou muito teimosa. Teve muitas coisas na minha vida que foram acontecendo sem ser intencional, mas que favoreceram muito. Por exemplo, meu pai com esse cuidado todo para eu não me machucar..., eu era doida pra aprender a andar de bicicleta, mas é claro que ele jamais ia deixar. Eu, muito teimosa, quando deparava com uma bicicleta, montava nela. Não queria nem saber. Ele falava comigo e eu ia embora e fingia que não estava escutando. Ele não desistiu. Coincidiu de um primo dele me dar uma bicicleta de presente e ele trabalhava à noite. Então, perfeito, toda tarde eu ia aprender a andar de bicicleta. Aí eu aprendi. Quando ele viu, eu já estava sabendo. Aí ele não esquentou mais.


E você andava no espaço...

...que eu conhecia e onde não tinha muita gente. E assim foi nas outras coisas também, sabe? Nos estudos. Eu estudei no Benjamin até a oitava série e nunca repeti de ano. Lá tem tudo: Educação Física, Natação, Artesanato, Música. Foi muito bom. E lá é muito grande, a gente aprende a se locomover. Eu não era interna porque ele não deixou. Já minha mãe era medrosa, mas deixava. Ele, não deixava de jeito nenhum. Quando eu tinha uns 12 anos eu queria limpar a minha cômoda no meu quarto, arrumar as minhas coisas do meu jeito. Ele não queria deixar. Eu tinha de fazer tudo escondido, porque minha mãe deixava. Depois que ele via que estava dando tudo certo aí ele deixava. Não deixava eu namorar, usar brinco, passar baton e eu sempre uso. Mas não é por causa de ser filha única, não, é o temperamento dele. E ele é nordestino...


Deve ter sido uma relação complicada...

É mas foi legal, também, porque foi sendo construída. Eu fui mostrando que eu poderia me machucar, mas é um risco que todo mundo corre. Qualquer um pode cair de uma bicicleta.


Jeane, você continua estudando, não é? Sei que você faz um curso na UFRJ.

Eu faço parte do grupo de pesquisa da UFRJ, sempre fiz desde quando eu estava cursando Pedagogia na UFRJ, eu me integrei num grupo de pesquisa de Sociologia. Fiquei um ano e pouco nesse grupo. Aí terminou o projeto e começou outro. Eu não quis entrar nesse outro grupo de Sociologia. Eu fui para a pesquisa sobre Inclusão. E é onde eu estou até hoje.


Então você deve ter uma discussão bastante aprofundada sobre a inclusão. Que é que você acha da questão da inclusão dos alunos deficientes nas classes regulares? A Secretária de Educação tinha essa proposta para 2010, parece-me que ela voltou atrás.

Ela voltou atrás, sim. Eu, particularmente, sou favorável à inclusão. Acho que é uma excelente forma de aprendizado pra todos. Eu acho que todo mundo sai ganhando com isso: o aluno, os colegas, principalmente, que aprendem a conviver. Eu estudei no Pedro II no Ensino Médio e foi muito interessante também. Eu fiz parte da inclusão. Eu fui incluída. Eu fiz prova, fiz concurso, normalmente como todos.


Você fez a prova com ledor ou em Braille?

Com ledor. Eu acho isto muito interessante, também, porque mostra que você entrou por mérito, não porque é deficiente. Isso é muito legal porque mostra pro aluno que apesar da deficiência ele tem capacidade e mostra pros colegas também, pros professores. Eu acho que é um exemplo, até. Lá no Pedro II foi sensacional. Eu fui muito bem aceita pelos colegas, mas muito mesmo. Ali teve realmente a inclusão. E todo mundo ganhou. Precisa de ver como eles falavam, os alunos. Até hoje a gente se fala, se dá bem. Por exemplo, eu precisava de ledor e partia dos próprios alunos e lá no Pedro II tem uma das estratégias de ensino: todo bimestre nós temos que ler um livro de literatura e cai na prova. Eles, como eu tinha mais dificuldade, a turma tomou a iniciativa de montar um horário pra ler pra mim. E era tudo da mesma idade 16 anos. Fizeram isso durante os três anos. Então eu acho que a inclusão é maravilhosa, só que tem de querer. A inclusão depende de todos. Tem que estar todo mundo envolvido nesse processo mesmo: aluno, professor, colegas, direção, a sociedade. Tem que haver esse envolvimento de todos. Nesse caso, como a Secretária queria fazer, não ia dar muito certo. A gente sabe: não tem recurso, material nem pra quem enxerga, pros ditos “normais”, que dirá pros com necessidades especiais. Então eu acho que vale a pena, sim, mas tem que ser uma coisa gradativa, aos poucos. Primeiro ela tem que reeducar os profissionais, pois muitos não têm capacidade pra lidar nem com os ditos “normais”. Então tem de preparar para poder incluir até porque existem necessidades e necessidades. Tem alguns, no caso, um aluno com deficiência visual, ele pode ser incluído normalmente. Não vai haver grandes problemas. Se ele tiver dificuldade, ele vai falar, vai pedir, vai buscar ajuda, de alguma forma. Já um PC, por exemplo, vai ter muita dificuldade. Se ele não tiver um apoio, vai ser muito mais difícil. Não é simples assim como as pessoas pensam. Mas eu sou favorável à inclusão.


Jeane, você se locomove sozinha?

Não, eu saio sempre acompanhada, porque eu tenho medo. Eu conheço o caminho, sei como chegar aos locais onde preciso, mas sempre tem alguém que me acompanhe, nem que seja uma criança que não saiba o caminho, só para que eu me sinta mais segura.

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